A educação que constrói famílias

A rede de apoio comunitária é um fator fundamental para motivar os jovens a continuarem sua formação

Quando Helena Gonçalves começou a trabalhar, há um mês, como cozinheira no CJ (Centro da Juventude) Jardim Magdalena, onde sua filha, Vitória, de 16 anos, participa de programas de formação, não imaginava que deixaria de ser simplesmente a “tia da cozinha” para ser também amiga, conselheira e mãe dos outros 60 jovens atendidos no local.

“Eles contam coisas de suas vidas, conversam e pedem conselhos”, conta Helena, que, durante quatro anos, já ajudava como mãe voluntária no CJ, localizado no Capão Redondo, onde jovens entre 15 e 17 anos realizam atividades culturais, de cidadania e de formação profissional. “Sempre gostei do convívio com crianças e adolescentes e muitos jovens do centro são da vizinhança, frequentam as mesmas escolas que os meus filhos… todo mundo se conhece”, diz ela.

“O CJ acaba virando nossa segunda casa. É um lugar para receber conselhos. Se você tem um problema, sabe que pode contar com o pessoal daqui”, emenda Vitória. Ela chegou ao Jardim Magdalena há um ano, por recomendação de um amigo. Hoje, é uma das alunas mais empolgadas do projeto Engenhoca Criativa, desenvolvido pela AlfaSol em parceria com a Explorum e apoio da Samsung, que ensina tecnologia e empreendedorismo aos jovens. “É bem mais legal do que eu pensei que seria!”, confessa a adolescente.

O CJ e os projetos desenvolvidos nele são construídos por toda a comunidade. Isso é algo que se nota desde o trato pessoal entre pais, educadores e alunos, até as dezenas de flores coloridas, feitas à mão com EVA, que decoram as paredes e tetos do local.  “Um projeto desses é muito importante para a comunidade, porque não acolhe apenas nossos filhos, mas toda nossa família. É uma rede de apoio para nós”, diz Helena.

Uma turma do Engenhoca Criativa no CJ Jardim Magdalena.

Elis Sobral conhece o nome, o endereço e os familiares de cada membro que forma essa rede de apoio. Desde 2013, ela é diretora do CJ e “mãe de educação” dos jovens que passam por lá (a capacidade oficial é de 90 adolescentes, mas, ela admite, o espaço chegou a trabalhar com até 120 jovens).

Elis explica que, em áreas de grande vulnerabilidade social, como a periferia, o acompanhamento familiar e comunitário na educação faz toda a diferença. “O apoio da família é um fator decisivo para que um jovem decida continuar sua formação ou largar tudo”, afirma. Ela teve a confirmação dessa ideia depois de realizar uma dinâmica com os pais e mães dos alunos. Eles tiveram que escrever cartas para seus filhos, que foram lidas durante um encontro entre todos no próprio CJ. “Depois disso, percebemos que essa simples experiência melhorou muito a frequência dos jovens nos cursos”, conta a diretora, que celebra uma reunião com as famílias pelo menos uma vez a cada mês.

No entanto, Elis não esconde que há obstáculos: muitos jovens chegam no CJ à procura de um primeiro emprego e, por lei, o centro não pode emitir certificados nem agenciar trabalhos. “Fazemos o que podemos com os cursos de formação. Graças a eles, 15 jovens que passarampor aqui no ano passado conseguiram trabalhos em empresas como Deloitte ou Folha de S. Paulo”, conta, orgulhosa. Apesar disso, lamenta a diretora, muitos pais acham que seus filhos vão para o CJ “fazer nada”, o que exige todo um trabalho de conscientização com os familiares.

“O nosso maior desafio é fazer os olhos desses jovens brilharem para que eles se mantenham nos projetos. Acredito num futuro melhor para eles e na possibilidade de virar esse jogo”, diz ela. Nós também acreditamos nisso.